quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O CORRETO LUGAR DO TEMPLO NA ADORAÇÃO A DEUS

  Há alguns dias, São Paulo foi o centro das atenções de todo o mundo, diante da inauguração do ‘Templo de Salomão”, a nova sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus.
Este novo megatemplo, quatro vezes maior que o Santuário Nacional de Aparecida, veio reacender uma discussão que tem ocupado muitos entre os que cristãos se dizem ser, qual seja, qual o correto lugar do templo na adoração a Deus.
Ao resgatar a figura do “Templo de Salomão” para tornar a sede mundial de sua denominação, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e, mais, particularmente, o seu líder, o bispo Edir Macedo, confirmou uma linha de pensamento segundo a qual é importante o local para que se tenha a adoração a Deus.
Não é de hoje que a IURD tem manifestado este pensamento. Sempre foi uma prática constante desta denominação a valorização do local para a obtenção das bênçãos de Deus, como, por exemplo, a chamada “fogueira santa de Israel”, “… propósito especial, geralmente duas vezes ao ano, com o objetivo de fazer as pessoas terem a vida transformada em todas as áreas da vida.…” (Fogueira Santa. Disponível em: www.universal.org/fogueirasanta/ Acesso em 02 ago. 2014), onde “… bispos e pastores do mundo todo reúnem os pedidos feitos pelo povo e os levam a lugares sagrados, cenários bíblicos das grandes manifestações do poder do Altíssimo na vida do povo de Israel. (end.cit.). Nota-se, portanto, que um dos elementos necessários para que se obtenha a “transformação” é que os pedidos sejam levados até “lugares sagrados”.
Esta mentalidade, no entanto, não tem qualquer respaldo no Evangelho de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Em Seu diálogo com a mulher samaritana, o Senhor Jesus foi claro ao afirmar que Sua vinda ao mundo havia trazido um novo patamar para a adoração a Deus, que independia de um local específico.
Quando a mulher samaritana, ao lado do poço de Jacó, mostrou a divergência existente entre os judeus e samaritanos quanto ao local de adoração, pois os samaritanos haviam construído um templo alternativo no monte Gerizim, enquanto os judeus mantinham a adoração ao Senhor no templo de Jerusalém, o Senhor Jesus afirmou: “à hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais que assim O adorem” (Jo. 4:23).
Jesus, então, mostra que, com a Sua vinda, um novo patamar de adoração se daria, o patamar da adoração em espírito e em verdade, uma adoração que não se limitaria a um local específico, uma adoração que refletiria a circunstância de que, a partir da salvação em Cristo Jesus, o próprio ser humano seria a habitação de Deus e não um lugar especial, onde Deus estaria presente.
Cumpre observar que o Senhor Jesus não recriminou a existência de um templo. Pouco antes de proferir estas palavras que transcrevemos, o Senhor fez questão de dizer à samaritana: “vós adorais o que não sabeis, nós adoramos o que sabemos, porque a salvação vem dos judeus” (Jo.4:22).
Nem poderia ser diferente, porquanto o templo havia sido construído em Jerusalém por ordem de Deus, pois, desde a lei de Moisés, havia sido previsto que o Senhor escolheria um local para que ali fosse erguida uma edificação que demonstrasse a Sua presença no meio do povo (Dt. 26:2) e este local foi determinado quando da aceitação do sacrifício feito por Davi para a cessação da peste que havia sido imposta sobre o povo de Israel pela indevida numeração do povo (II Sm. 24:25).
Os samaritanos haviam construído um templo alternativo no monte Gerizim, segundo Flávio Josefo, por Sambalate (não confundir com o homônimo do tempo de Neemias), governador de Samaria, para o seu genro Manassés, irmão do sumo sacerdote Jadua, que havia sido destituído do sacerdócio judaico por ter casado com uma samaritana, isto no tempo de Alexandre, o Grande, ou seja, por volta de 330 a.C.
 A determinação de Deus para que houvesse um local onde se “fizesse habitar o Seu nome” era perfeitamente compreensível pois, em virtude do pecado, era impossível que houvesse comunhão entre Deus e o homem. O Senhor queria mostrar que estava presente no meio do Seu povo, que queria conviver com Ele, aguardando o momento em que poderia habitar no próprio homem, quando o pecado fosse tirado do mundo.
 Foi precisamente isto que fez o Senhor Jesus, que, como não tinha pecado, era Ele próprio um templo, uma habitação de Deus, como disse aos judeus: “Derribai este templo e, em três dias, o levantarei (…). Mas ele falava do templo do Seu corpo.” (Jo. 2:19, 21).
 Assim como o corpo de Cristo era um templo, visto que não tinha pecado, da mesma maneira, todos os que crêem em Seu nome, também se tornam templos, pois passam a ser morada da Trindade (Jo. 14:23; I Co. 6:19).
Neste novo patamar, tem-se como evidente que não se tem mais um local onde Deus possa habitar o Seu nome. Depois da vinda de Cristo ao mundo, a adoração se faz em espírito e em verdade, independe de qualquer espaço. Então, é errado construirmos templos para adorar a Deus?
Muitos, precipitadamente, diante desta nova realidade da adoração em espírito e em verdade, chegam a esta conclusão, dizendo que a construção de templos seria “paganismo”, seria uma “abominação”. Não é, porém, a correta interpretação.
Se, no tempo da lei, havia um lugar específico para se adorar a Deus, tanto que era vedado que se tivesse adoração ao Senhor em outro lugar que não o templo, na graça, como temos visto, não existe mais esta obrigatoriedade, porquanto cada servo de Deus é um templo. No entanto, a vida espiritual não é vivida isoladamente, porquanto o Senhor fez dos seres humanos seres sociais, pois “não é bom que o homem esteja só” (Gn. 2:18). Esta sociabilidade fica evidente quando o Senhor Jesus disse que edificaria a Sua Igreja (Mt. 16:18), (ou seja, uma “reunião de pessoas”, pois “igreja” é uma “reunião de pessoas trazidas para fora”).
Portanto, é determinação de Cristo que os Seus servos vivam reunidos, tanto que prometeu estar no meio deles quando se reunissem em Seu nome (Mt. 18:20).
Se assim é, torna-se evidente que os salvos precisam se reunir, trocar experiências e, coletivamente, adorar a Deus, até porque é nesta convivência que crescerão espiritualmente, pois a Igreja é um corpo composto de muitos membros em particular, que se interdependem (I Co. 12:12-31), pois somente nesta interdependência se desenvolverá o amor de Deus que foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm. 5:5).
Por isso, a igreja primitiva, em Jerusalém, reunia-se tanto no templo de Jerusalém quanto nas casas (At.3:1; 4:31; 5:12, 42).
Nem se diga que esta circunstância era ainda um “resquício de judaísmo”, que isto refletia uma vacilação dos cristãos que ainda se enxergavam não como um novo povo mas como uma vertente do judaísmo.
Com efeito, depois que foram expulsos de Jerusalém e impedidos de continuar adorando no templo de Jerusalém, os cristãos prosseguiram se reunindo em locais para adorar a Deus, como vemos, aliás, na primeira igreja gentílica, a de Antioquia (At.11:26), ou nas igrejas fundadas nas viagens missionárias de Paulo, que, normalmente iniciadas em sinagogas, depois, com a rejeição dos judeus, passavam a se reunir em outros lugares escolhidos para este fim, como a escola de Tirano em Éfeso (At.19:9).
Bem se vê, portanto, que os discípulos de Cristo Jesus no período apostólico reuniam-se em locais específicos para adorar a Deus, mesmo sabendo que eram o povo de Deus e não um mero segmento religioso advindo do judaísmo prova de que não era ensino do Senhor Jesus a abolição de locais destinados primacialmente para a reunião dos crentes em adoração coletiva ao Senhor.
Alguns dirão que estes locais não eram templos, como os que temos hoje, e que, portanto, isto seria uma prova de que a construção de templos é algo que foi proibido pelo Senhor Jesus ou que é incompatível com o Evangelho.
 Nada mais falso, porém.Por primeiro, lembremos que os cristãos judeus não poderiam, mesmo, construir seja templos, sejam sinagogas.Não podiam construir templos, pois havia apenas um templo, o templo de Jerusalém. A lei de Moisés proibia a construção de qualquer templo em lugar outro que não o escolhido por Deus e o local escolhido era Jerusalém, no lugar onde Davi sacrificara para aplacar a ira divina e que correspondia ao monte Moriá, onde Abraão levara Isaque em sacrifício.
Deste modo, não poderiam, mesmo, os judeus construir qualquer templo e, por isso mesmo, até hoje os judeus, mesmo estando ocupando parte da Palestina, não ousaram construir um novo templo, já que o local em que somente podem fazê-lo é o local hoje conhecido como a Esplanada das Mesquitas, onde estão à mesquita Al-Aqsa e o Domo da Rocha.
Por segundo, lembremos que os cristãos judeus não podiam, também, edificar sinagogas, pois tal edificação demandaria o reconhecimento por parte das autoridades religiosas judaicas, que consideravam os cristãos como uma seita, a “seita dos nazarenos” (At.24:5), algo que jamais conseguiriam, sendo certo que a política romana dava plenos poderes às autoridades judaicas para decidir sobre assuntos de religião (Jo. 18:31; At.18:14, 15).
Por terceiro, lembremos que os cristãos gentios também não podiam edificar templos, porquanto os cristãos também não eram bem vistos pelo governo romano, diante de sua recusa em adorar o Imperador, sendo, por isso mesmo, considerados “ateus”, ou seja, pessoas que não criam nos deuses e cujo culto, portanto, não era permitido.
Diz a história que somente no tempo de Alexandre Severo, que reinou de 222 a 235, os cristãos tiveram permissão para edificar templos, permissão, aliás, que foi temporária e posteriormente desconsiderada pelos seus sucessores.
Assim, a inexistência de templos nos primeiros séculos da Igreja não decorreu de uma incompatibilidade entre o Evangelho e a construção de templos, mas, sim, de motivos sócio-políticos que impediam a sua existência.
Tanto é que, com a tolerância do culto cristão a partir do reinado de Constantino (306-337), templos cristãos passaram a ser erguidos, não raras vezes seguindo os modelos dos antigos templos pagãos, quando não ocupavam locais anteriormente dedicados a cultos dos deuses pagãos.
Dizer, portanto, que os cristãos somente passaram a construir templos por causa de uma “paganização” é totalmente inexato, pois seria o mesmo que dizer que os protestantes no Brasil se “paganizaram” quando começaram a construir templos depois da Proclamação da República, quando não fizeram até então tão somente porque, no Império, a Constituição proibia a construção de templos que não fossem da Igreja Romana, motivo pelo qual, até 1889, os protestantes se reuniam em casas ou edifícios que não tinham qualquer aparência de templos religiosos.
Não podemos, é verdade. desconsiderar que a tolerância do culto cristão se deu de forma a fomentar e incentivar uma “conversão em massa” de muita gente que não queria senão se mostrar cristão para ter as benesses do governo romano, processo este que levou a uma “paganização” do Cristianismo, que perdura até nossos dias.
Entretanto, não é correto identificar a construção de templos para a adoração coletiva como uma demonstração pura e simples desta “paganização”.O templo é um local onde o povo se reúne para adorar a Deus, um local onde as pessoas participam da necessária convivência para o crescimento espiritual.
Portanto, se o templo não for identificado como “o local da habitação de Deus”, mas como um lugar onde as pessoas se dedicam à adoração coletiva ao Senhor, onde a igreja local pode centralizar as suas atividades no desempenho de suas tarefas sobre a face da Terra, tem-se uma atitude perfeitamente de acordo com a Palavra de Deus e que não encontra qualquer violação aos princípios bíblicos.O que é errado é considerar o templo como o “lugar onde Deus está”, como “o lugar da presença de Deus”, mentalidade que se demonstra entre os mentores da construção do “templo de Salomão” em São Paulo.
Este equívoco, aliás, não é novidade. Já estava presente em Judá nos dias do profeta Jeremias, que, como mensageiro de Deus, denunciou este falso pensamento, como vemos, por exemplo, em Jr.7:4: “Não vos fieis em palavras falsas. Dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este.” Nos dias de Jeremias, o povo vivia no pecado, desprezava a lei do Senhor, mas confiava no templo como o “lugar da presença de Deus” e, portanto, achavam-se protegidos de qualquer mal porque Deus habitava no templo em Jerusalém.O profeta é claro ao dizer que o povo deveria servir a Deus e não crer que o templo era uma garantia da presença de Deus no meio deles e, compreendamos, estávamos em plena época da lei, onde havia um lugar onde se fazia habitar o nome do Senhor.Portanto, confiar que se encontra com Deus no templo e que a existência de um “lugar sagrado” é suficiente para a nossa salvação é um grande equívoco, com o qual não podemos concordar.
Podemos, sim, construir templos e neles adorar a Deus, mas temos de lembrar que o templo é apenas um local onde nos reunimos, onde adoramos a Deus coletivamente, onde centralizamos as ações que devemos realizar como povo de Deus, mas somente seremos povo de Deus se adorarmos ao Senhor em espírito e em verdade, se formos, a cada momento, a cada instante de nossas vidas, templos do Espírito Santo.
A proliferação de megatemplos, a supervalorização destes templos como “locais sagrados”, como “garantia da presença de Deus” é mais uma demonstração de que vivemos dias de apostasia espiritual, dias em que o Senhor é rejeitado e o homem busca criar meios de se aproximar de Deus sem que abandone a sua auto-suficiência e arrogância, sem que se arrependa de seus pecados.Como se não bastasse isso, o “templo de Salomão” traz embutida uma mentalidade judaizante, com a mescla de elementos cristãos e judaicos, em total desconsideração de que estamos na dispensação da graça.
Como já dissemos supra, não é de surpreender esta conduta por parte de uma denominação que tem se distanciado, e muito, do padrão bíblico, que tem, muitas vezes com nítidos interesses mercantilistas, adotado práticas incompatíveis com o Evangelho.A verdade é que a construção de um “templo de Salomão”, fora do lugar escolhido por Deus, faz com que esta obra não possa ser considerada como um resquício judaizante, pois ofende um dos mais basilares princípios judeus.
A entrada triunfal de uma “arca da aliança” no dia da inauguração do templo é uma demonstração eloqüente de que se está diante de uma completa violação dos valores cristãos, já que, como sabido, a “arca da aliança” e outros símbolos da lei eram apenas figuras da dispensação da graça e que não podemos, portanto, nos ater a tais símbolos na atualidade, vez que Cristo, que era figurado pela arca, já veio e habita em nós, tornando tais simbolismos totalmente desnecessários.Além disso, o que é um grande paradoxo, a IURD, com seu templo de Salomão, está, mais uma vez, demonstrando ter como paradigma a Igreja Romana, que, na inauguração do megatemplo, foi, uma vez mais, atacada durante uma exibição de vídeo sobre a “história do Cristianismo”, pois é o Romanismo o segmento religioso que, em plena dispensação da graça, com supervalorização de templos, se utiliza de elementos da Antiga Aliança na sua liturgia.
Ora, se a própria IURD fez questão de dizer que a Igreja Romana era apóstata quando da inauguração de sua sede mundial, e está a seguir-lhe as pisadas, só podemos concluir que o “templo de Salomão” é uma eloqüente e monumental comprovação de apostasia espiritual.Por fim, devemos também rechaçar aqueles que, diante desta eloqüente demonstração de apostasia, aproveitaram a ocasião para trazer mais um episódio de “escatologia aterrorizante”, para aqui nos utilizarmos da feliz expressão cunhada pelo pastor Ciro Sanches Zibordi, ao ver no “templo de Salomão”, o “templo do Anticristo”.
Não se nega que toda manifestação de apostasia espiritual é uma manifestação do “espírito do Anticristo”, como nos mostra, com clareza, o apóstolo Paulo em II Ts. 2:3. No entanto, dizer que o “templo de Salomão” em São Paulo é o “templo do Anticristo” é um exagero e que não tem qualquer fundamentação bíblica.
O “templo do Anticristo” será o templo que os judeus construirão na Grande Tribulação no local onde já foram construídos os templos judeus, onde hoje está a Esplanada das Mesquitas. Ali, precisamente no lugar escolhido pelo Senhor, o Anticristo profanará o templo judeu, depois que ele estiver funcionando há três anos e meios, episódio que representará a quebra da aliança entre Israel e o Anticristo, como profetizado em Dn. 9:27, profecia lembrada pelo Senhor Jesus em Seu sermão escatológico (Mt.24:15).
O “templo de Salomão” da IURD é, sim, uma manifestação de apostasia, mas não passa de mais uma demonstração do “espírito do Anticristo”, algo bem pálido do que ainda está por vir.
Caramuru Afonso Francisco
* Evangelista da Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Ministério do Belém – sede – São Paulo e colaborador do Portal Escola Dominical (www.portalebd.org.br).