segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

ARREPENDIMENTO:A PORTA DE ENTRADA PARA O REINO DE DEUS



A doutrina do arrependimento é uma das mais importantes do cristianismo e ocupa um espaço absolutamente central na história da redenção. Por toda a Escritura Sagrada, de modo mais ostensivamente explícita ou subentendida, a doutrina do arrependimento avulta, revelando-se, assim, a sua indiscutível significação teológica.

No Antigo Testamento, por exemplo, o ministério dos profetas, traduzido pela recepção, compreensão e proclamação da Palavra de Deus ao povo, frequentemente, tinha na pregação da mensagem do arrependimento uma das suas marcas principais. E tal ocorria por uma razão muito simples: havia no seio do povo de Deus uma impressionante propensão para o afastamento do Senhor, para o trilhamento de caminhos pecaminosos, inteiramente desaprovados pelo Senhor.

Diante das contumazes rebeliões dos israelitas, sempre pródigos em enveredar pelas sendas da idolatria e da corrupção do culto a Jeová, Deus, longânima e benevolentemente, enviava a sua Palavra pela instrumentalidade dos profetas, exortava o povo, denunciava a sua impiedade, confrontava os seus maus caminhos, trazia sobre eles o seu justo juízo e, desse modo, mostrava a sua inviolável santidade, deixando bem claro que jamais compactuaria com o mal, tratando o culpado como se inocente fosse. Contudo, o intento primordial do Senhor não era simplesmente punir o seu povo, mas sim quebrantá-lo e levá-lo a uma mudança de atitude; enfim, ao arrependimento e, ato contínuo, ao abandono de uma vida de consciente iniqüidade.

Nesse particular, um dos mais emblemáticos exemplos do modo gracioso como Deus trata o arrependimento de um pecador contrito é-nos conferido pela história de Manassés, catalogado, no livro santo de Deus, como um dos mais perversos reis que Israel já teve em sua turbulenta história. O relato bíblico acerca do reinado de Manassés é primoroso na cartografia que empreende a respeito da impressionante impiedade que lhe marcou as ações no comando político-administrativo de Israel.

O governo de Manassés foi longo, 51 anos, todos eles caracterizados por maldade, profanação, idolatria, feitiçaria, crimes abomináveis como o de queimar os seus filhos e oferecê-los como sacrifício aos deuses vãos e inexistentes, fabricados por sua imaginação depravada. Tais barbaridades não se constituíram em lances fortuitos na vida de Manassés, antes de impuseram como um paradigma comportamental predileto, dado que ele “prosseguiu em fazer o que era mau perante o Senhor, para o provocar à ira” (2 Crônicas 33.6b).

Mais tarde, transformado em prisioneiro de guerra e troféu do exército assírio, sendo conduzido em praça pública em sinal de humilhação suprema, “Ele, angustiado, suplicou deveras ao Senhor, seu Deus, e muito se humilhou perante o Deus de seus pais; fez-lhe oração, e Deus se tornou favorável para com ele, atendeu-lhe a súplica e o fez voltar para Jerusalém, ao seu reino; então, reconheceu Manassés que o Senhor era Deus” (2 Crônicas 33.12,13).

No Novo Testamento, não é menor e menos relevante o valor da doutrina do arrependimento. Pelo contrário, ela é, por assim dizer, o coração da mensagem do evangelho da graça de Deus. O arrependimento foi o tema central da pregação desencadeada por João Batista, cuja aparição no deserto da Judéia deu-se da seguinte forma: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 3.2). O arrependimento também configurou-se como o cerne da pregação de Jesus Cristo, a própria Palavra encarnada de Deus: “Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 4.17).

Mais adiante, depois de ressuscitado dentre os mortos, Jesus Cristo “instrui os seus discípulos que estavam no caminho de Emaús, abrindo-lhes o entendimento para que compreendessem as Escrituras Sagradas e lhes ordena que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém “ (Lucas 24.45,47). Depois da descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, que conferiu à igreja a capacitação necessária para a proclamação do evangelho, o apóstolo Pedro prega o seu primeiro e poderoso sermão, ao fim do qual houve “um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas” (Atos 2.41b).

O ponto central da mensagem anunciada por Pedro não foi outro senão o que se nuclearizou por um veemente apelo à consciência dos que o ouviram: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2.38b). Apelo aqui, bem entendido, encarado como a mensagem em toda a sua integralidade, dirigida, de igual modo, ao ser total do homem, seu pensar/sentir/agir; e não o apelo visto como uma cerimônia emocional acrescentada à pregação e que seria, supostamente, portadora de uma virtude adicional capaz de comover o pecador e, desse modo, levá-lo a Cristo.

Nessa acepção semântica particular e inteiramente estranha à boa tradição do cristianismo bíblico-histórico, o apelo é tributário das crenças e práticas pelagianas de um teólogo americano chamado Charles Finney, cujos ensinamentos trouxeram muitos males para a igreja cristã. No ministério do apóstolo Paulo, a doutrina do arrependimento também foi presença fulcral. Uma grande demonstração dessa realidade verifica-se no paradigmático sermão que ele proferiu no Areópago de Atenas. Ali, no panteão da intelectualidade grega, cercado pelos mais laureados corifeus do pensamento helênico, Paulo refuta, como amor, sabedoria e firmeza, um a um, todos os falsos conceitos filosóficos que aquelas pessoas nutriam a respeito de Deus e do sentido último e definitivo da vida.

Contestando estóicos e epicureus, as principais correntes filosóficas ali presentes, Paulo proclama uma mensagem profundamente rica do ponto de vista teológico. Nela, Deus emerge como o criador supremo de todas as coisas, que a tudo concedeu vida pelo poder glorioso da sua Palavra. Prosseguindo em sua argumentação, o apóstolo aponta, de igual modo, para o Deus que preserva todas as coisas que criou, sustentando-as pelo seu poder imenso.

Diferentemente do que apregoavam os sistemas filosóficos gregos combatidos por Paulo, defensores da ideia de divindades distantes e absolutamente desinteressadas pelos seres humanos, as quais não passavam de projeções da vã e idolátrica imaginação humana, o Deus único, vivo e verdadeiro das Escrituras Sagradas é um Deus presente, envolvido com a sua criação de modo extremamente radical, tanto é assim que, na pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, Deus se encarnou, fez-se homem, andou e viveu nesta terra santamente, morreu, substitutivamente, na cruz do calvário, a fim de salvar, eficazmente, pecadores que lhe foram, antes da fundação do mundo, entregues pelo Pai. Em suma: o Deus apresentado por Paulo é um Deus amoroso, gracioso, benevolente, misericordioso, bom; é um Deus redentor. É, também, um Deus santo, justo, plenamente puro, que, ao ter a sua lei quebrada pelo pecador, exige, como salvaguarda do seu caráter inquebrantavelmente santo, a morte do pecador, dado que “a alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18.20).

Mas, o Deus que não transige com o pecado, nem tem o culpado na conta do inocente, é o mesmo que, graciosamente, “não levou em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda a parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (Atos 17.30b,31). Vemos, pois, que, centralíssima em toda a Escritura Sagrada, a doutrina do arrependimento é a porta indesviável de entrada do pecador no reino de Deus.

Um ponto, de pronto, se impõe: quem precisa de arrependimento? A pergunta parece óbvia, mas a sua existência tem uma nítida razão de ser. No senso comum, sobretudo por causa do alto grau de justiça própria cultivado pelos homens, há sempre quem ache que arrependimento não é uma necessidade de todos, mas sim de algumas pessoas supostamente mais pecadoras, praticantes, digamos, de males mais escabrosos e moralmente mais passíveis de censura coletiva.

A Escritura Sagrada, no entanto, caminha em direção inteiramente contrária. Visto que todos pecaram, todos precisam de arrependimento, sem exceção e sem distinção. Uma passagem bíblica emblemática a esse respeito é a que o evangelista Lucas registra no capítulo 13 do seu evangelho. Nele, há uma história que faz referência a alguns “galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam” (Lucas 13.1b). Depois, o texto alude a dezoito pessoas “sobre as quais desabou a torre de Siloé”, matando-os imediatamente.

Diante de tais acontecimentos, não faltou quem julgasse que tais infortúnios se abateram sobre essas pessoas pelo fato delas serem mais pecadoras do que as outras. Ouçamos o que diz Jesus Cristo acerca do assunto: “não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lucas 13.4b,5). Um outro questionamento importante é o que legisla sobre a seguinte matéria: de que devem os homens se arrepender? Não somente do que fazem, mas também do que são. Não somente dos atos desarmonizados com a vontade santa de Deus, mas do estado espiritual em que se encontram.

O homem é pecador na sua essência, e disso ele deve se arrepender-se, de viver constantemente errando o alvo estabelecido por Deus e, em direção contrária, prosseguir andando de modo contrário ao elevado padrão da lei do Senhor. Para quem se julga bom e merecedor do céu por seus próprios méritos, nada mais recomendável do que um estágio, ainda que breve, na escola dos dez mandamentos, diante dos quais fica evidenciada, sem rasuras, a completa falência do homem diante de tão sublime modelo de santidade.

Os evangelhos falam acerca de um jovem riquíssimo que, pretextando interesse pelas coisas espirituais, perguntou a Jesus o que deveria fazer para herdar a vida eterna. Jesus ordenou-lhe que observasse os mandamentos de Deus e os praticasse. Ele disse que tudo isso já fazia, desde a sua infância. Jesus, então, dá o golpe final no ensoberbecido e autoconfiante ego do rico e perdido jovem: “uma coisa ainda te falta: vende o que tu tens, dá aos pobres, vem e segue-me; e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Mas, ouvindo ele estas coisas, ficou muito triste, porque era riquíssimo” (Lucas 18.22,23).

Diferentemente do que presumem que Jesus estaria aqui ensinando a possibilidade de haver salvação pela observância da lei de Deus, o que vemos, de fato, é o Filho de Deus demonstrando, cabalmente, que pela guarda da lei ninguém pode ser salvo. O jovem rico, por exemplo, gabava-se de ser um exímio guardião de toda a lei de Deus, mas, na verdade, começou a transgredi-la já a partir do primeiro mandamento, na medida em que o seu deus era o dinheiro, a quem ele amava “de todo o coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento” (Lucas 10.27b). Em suma: o jovem rico era simplesmente um idólatra, um triste e perdido pecador, mais do que necessitado de arrependimento e carente da perdoadora graça de Deus. Um último e nodal ponto acerca da doutrina do arrependimento é o seguinte: como o homem pode se arrepender?

Chegamos, pois, ao coração de um dos grandes paradoxos do cristianismo. Embora a Escritura Sagrada, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, deixe muito claro que o arrependimento é uma ação de inteira responsabilidade do homem, não é menos meridiana a sinalização que ela dá de que o arrependimento genuíno, e não um mal-estar passageiro da consciência, só acontece num coração que foi poderosamente tocado pelo Santo Espírito de Deus; o qual, valendo-se da instrumentalidade da pregação do evangelho, convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (João 16.8b), revela a sua completa miséria moral e espiritual e, por fim, o conduz a Jesus Cristo, o perfeito e eficaz Salvador, que na cruz, ao bradar: “está consumado” (João 19.30b), salvou, efetivamente, todos aqueles por quem morreu; que lhe foram entregues pelo Pai; e nos quais o Espírito Santo aplica as virtudes dessa grande e salvífica obra.

Nesse particular, vale transcrever as seguintes palavras das Escrituras Sagradas: “E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade. E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos” (2 Timóteo 2.24,26).

Claro que o arrependimento, na passagem em foco, direciona-se, fundamentalmente, aos falsos mestres que se distanciaram da Palavra de Deus e se tornaram, ato contínuo, pregoeiros do engodo, cuja linguagem “corrói como gangrena” (2 Timóteo 2.17b), o que não anula o fato de que, em qualquer circunstância, o arrependimento genuíno somente se efetiva pela ação sobrenatural do Santo Espírito de Deus, que aquece os afetos, ilumina o coração e alforria a vontade, impelindo-a a abraçar a Cristo pelos inquebrantáveis laços da fé, gracioso dom de Deus.

A despeito de toda a importância da doutrina do arrependimento para a vida do cristão, ela será inócua se se confinar apenas ao campo do academicismo teórico; se não desembocar num viver contrito e piedoso, que cultiva a plena consciência de que em nosso dia-a-dia, de variadas formas, nós pecamos contra Deus e carecemos, desesperadamente, da sua restauradora graça.

Concluímos essas considerações sobre o arrependimento com os seguintes questionamentos a todos os que as lerem: você já se arrependeu verdadeiramente dos seus pecados? Já foi persuadido pelo Espírito de Deus de que sem Cristo está irremediavelmente perdido? Já abandonou a vã presunção de ser possível ser acolhido por Deus amparado pelas imprestáveis muletas das obras supostamente meritórias? Tais fatos já fazem parte da sua vida ou, ao contrário, você continua longe de Deus e resistindo ao seu gracioso chamado para a salvação? Pense nisso, lembrando-se sempre de que somente as ovelhas de Cristo ouvem a sua poderosa e libertadora voz. Arrependa-se dos seus pecados, dê ouvidos ao chamado de Salvador Jesus Cristo e creia nele de todo o seu coração.

SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.

FONTE: Professor José Mário
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