quarta-feira, 12 de outubro de 2011

LENDO CORRETAMENTE AS ESCRITURAS SAGRADAS.



No conhecido livro de hermenêutica bíblica intitulado Entendes o que lês?, os seus autores Gordon D. Fee & Douglas Stuart, em determinado momento da sua argumentação, afirmam que a Bíblia sagrada é um livro que tanto é portador de relevância eterna quanto está impregnado de inescondíveis particularidades históricas.

Noutras palavras: a Bíblia é um livro que veio do céu, na medida em que o seu autor supremo é Deus, é o seu Santo Espírito; e, de igual modo, foi escrita por homens que vivenciaram situações existenciais concretas; homens que, ao escreverem o santo livro de Deus, o fizeram sob a inerrante supervisão do Santo Espírito do Senhor.

Fechando a sua argumentação, os aludidos autores entenderam que é exatamente da confluência dessas duas inseparáveis realidades que emerge a imperiosa necessidade da interpretação. Interpretação essa que, conforme bem pontuaram os Reformadores, deve ser empreendida de modo criterioso, sóbrio, ponderado, com o auxílio de bons livros, enfim, com a presença de ferramentas intelectuais que promovam uma abordagem correta das Escrituras sagradas, capaz de nos livrar dos subjetivismos recepcionais inconsequentes, sempre pródigos em extrapolações grosseiras e falsificadoras da intenção original que estava na mente do redator do texto sagrado.

Os Reformadores, impossível falar sobre hermenêutica bíblica sem recorrer ao inestimável legado que eles nos deixaram nesse campo, foram apaixonados partidários do método gramatical-histórico de abordagem do texto sagrado das Escrituras. Ler e interpretar bem um texto bíblico, na perspectiva reformada, é examiná-lo, num primeiro momento, em sua materialidade linguística, proposicional, verbal, nunca perdendo de vista que, ao revelar-se graciosamente aos homens, quis Deus fazê-lo de modo verbal, valendo-se de um instrumento concreto chamado palavra.

Daí, requerer uma boa interpretação conhecimentos mínimos da língua na qual o texto bíblico está sendo examinado. Conhecimentos gramaticais, estilísticos, enfim, conhecimentos que radicam no campo da linguagem em sua dimensão proposicional. De igual maneira, impõe-se ao intérprete a necessidade de uma compreensão, ao menos razoável, do contexto histórico no interior do qual um determinado texto foi produzido.

Saber quem escreveu um certo texto, por que escreveu, para quem o escreveu, quais as questões centrais envolvidas no processo de elaboração de tal escrito, em que outras porções das Escrituras sagradas tal matéria é abordada, são pontos fundamentais a serem considerados por um intérprete da Escritura que aspira a se aproximar do livro santo de Deus de uma forma adequada e sumamente responsável.

Vê-se aqui, claramente, que tal atividade analítico-interpretativa, para ser levada a bom termo, repele misticismos irracionalistas, subjetivismos exacerbados e, em direção contrária, exige estudo paciente e sistemático, leitura de livros abalizados e, naturalmente, completa dependência do autor primeiro e superintendente infalível das Escrituras sagradas: o Espírito Santo de Deus.

Quando a Palavra de Deus é lida e interpretada em franca desatenção a esses princípios, escancaram-se as portas para toda espécie de confusão, arbitrariedade e heresia. Vejamos, agora, alguns exemplos práticos de interpretações bíblicas completamente equivocadas.

No Evangelho de Marcos, ao dar as últimas instruções aos seus discípulos, Jesus Cristo diz: “Estes sinais hão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas; pegaram em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem; não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre os enfermos, ficaram curados” (Marcos 16.17,18).

Quando olhamos para a narrativa histórica de Lucas no Livro de Atos dos Apóstolos, constatamos que, praticamente, todas as situações descritas por Jesus Cristo, com exceção do beber veneno, se cumpriram no ministério daqueles que do Filho de Deus receberam a indisputável e irrepetivel prerrogativa apostólica.

O texto sagrado ensina, cristalinamente, que a manifestação ordinária desses milagres foi estendida e concedida, tão-somente, aos apóstolos de Jesus Cristo, somente a eles, e não a todos os crentes indiscriminadamente, em todas as épocas e do mesmo jeito. A história do cristianismo, lamentavelmente desconhecida pela maioria dos que se dizem cristãos, demonstra, à exaustão, essa irrefutável realidade. Notem que estou falando de uma realidade ordinária, e não extraordinária. Noutras palavras: tais prodígios faziam parte do dia-a-dia dos apóstolos, os acompanhavam em sua caminhada e em sua missão de proclamadores do evangelho da graça de Deus e da salvação que há em Jesus Cristo. Não quer isso dizer, evidentemente, que Deus não realiza milagres hoje em dia; que não mais intervém sobrenaturalmente em situações objetivas da vida dos seus servos; nem muito menos que o crente não pode orar suplicando a Deus uma cura. Nada disso. Significa apenas que o modo como Deus operou na vida dos apóstolos foi única, irrepetível, e cumpridora de uma etapa específica por ele mesmo estabelecida na história da redenção.

Entretanto, a hermenêutica precária, a hermenêutica nenhuma, e, o que é pior e mais provável, a má fé dos falsos obreiros contemporâneos os têm levado a se autoproclamarem realizadores de milagres tão portentosos como os que emergiram do ministério apostólico. A realidade concreta dos fatos cotidianamente observáveis, contudo, encarrega-se de desmentir tão grotescos charlatães.

As curas dos apóstolos, autenticadoras da mensagem que eles anunciavam, eram coisas “BEM SIMPLES E FÁCEIS DE FAZER”: cegueira, paralisias, até mortos eles ressuscitaram, como foi o caso de Pedro que trouxe Dorcas, piedosa serva do Senhor, ao mundo dos vivos, depois dela ter sido declarada morta.

Já os falsos apóstolos de hoje...bem, não creio que valha a pena discorrer sobre a fraude e a manipulação, por vezes (ou sempre?) criminosa em que radicam os seus ministérios do engano, ancorados, principalmente, na “dominação e na torpe ganância”, numa cabal negação da pedagogia ministrada pelo apóstolo Pedro aos presbíteros, sobre cujos ombros pesa a responsabilidade do pastoreio do rebanho do Senhor (1Pedro 5.1,4)

Outro emblemático exemplo de uma interpretação desvirtuada do texto bíblico é a que se ancora na seguinte passagem escrita pelo apóstolo Paulo em sua segunda epístola endereçada aos crentes da cidade de Corinto: “Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2 Coríntios 3.17).

Existe uma má interpretação desse versículo, à Luz da qual, liberdade, aqui, significa uma espécie de salvo-conduto para que o crente, no culto a Deus, se sinta estimulado a fazer tudo o que julgar conveniente para expressar o seu contentamento espiritual. Afinal das contas, liberdade desmedida é sinal de espiritualidade genuína, fervorosa, autêntica. Já solenidade, reverência, racionalidade na condução dos atos de culto, ao contrário, é claro indício de frieza, formalismo e aridez espiritual.

O argumento é frágil em todas as suas dimensões. Primeiro, porque o culto a Deus é prescrito pelas Escrituras sagradas, devendo ser efetivado do modo como elas orientam. Em segundo lugar, ponto seminal, a passagem em tela nada tem a ver com o culto. A esse respeito, vale a pena transcrevermos as palavras proferidas pelo pastor Augustus Nicodemus Lopes, ao comentar esse trecho bíblico, em seu livro mais recente: O ateísmo cristão e outras ameaças à igreja (Mundo Cristão-SP-2011).  “Paulo disse essas palavras se referindo à leitura do Antigo Testamento. Os judeus não conseguiam enxergar Cristo no Antigo Testamento quando o liam aos sábados nas sinagogas, pois o véu de Moisés estava sobre o coração e a mente deles. Estavam cegos. Quando, porém, um deles se convertia ao Senhor Jesus, o véu era retirado. Ele agora podia ler o Antigo Testamento sem o véu, em plena liberdade, livre dos impedimentos legalistas. Seu coração e sua mente agora estavam livres para ver Cristo onde antes nada percebiam. É dessa liberdade que Paulo está falando. É o Senhor, que é o Espírito, que abre os olhos da mente e do coração para que possamos entender as Escrituras”.

Portanto, quem se vale desse texto bíblico para justificar todo tipo de bizarrice comportamental no culto, tais como: urros no espírito, riso santo, trenzinho na unção, danças proféticas, gritos frenéticos, dentre outros, comete, flagrantemente um delito de lesa-interpretação bíblica.

Na Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo 3, versículo 6, encontramos a seguinte expressão: “o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito, porque a letra mata, mas o espírito vivifica”. Não são poucos os que advogam a tese de que a expressão letra, no texto em foco, é sinônimo da aridez espiritual decorrente de uma teologia ancorada em estudos valorizadores do intelecto.

Já o espírito, que vivifica, é o Espírito de Deus que, operando no crente, o torna fervoroso e inteiramente desinteressado de um cristianismo sóbrio, amparado numa compreensão equilibrada da Revelação que Deus fez de si mesmo nas Escrituras sagradas. Nada mais equivocado. O ponto aqui é simples. A letra aponta para o ministério da morte, que emana da lei de Deus. lei essa que, ao ser projetada sobre o coração e a consciência do homem, especialmente o irregenerado, revela a sua culpa e, mais ainda, a sua total inabilidade para guardar a lei de Deus. Quanto ao espírito que vivifica, por sua vez, ele aponta para a nova vida que passamos a viver em Cristo Jesus, depois que experimentamos o miraculoso poder da regeneração que o Espírito Santo opera em nós.

Em suma: para o irregenerado, a lei de Deus é expressão de morte. Para o que nasceu de novo, a lei de Deus é vida e fonte indesviável de real alegria espiritual. No livro de Apocalipse, lemos: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Apocalipse 3.20).

Temos aqui um texto mais do que pródigo para que pregadores emocionalistas cultivem a cerimônia do apelo, com a qual imaginam eles poder arrancar das pessoas “decisões favoráveis a Jesus Cristo”. Mas, um pouquinho só de atenção ao texto nos revela que Jesus Cristo, na verdade, está se dirigindo aos crentes, exortando-os ao arrependimento e, amorosamente, prometendo restaurá-los a uma vida de comunhão íntima com o Senhor.

Em suma: o exercício de uma hermenêutica bíblica sadia é fundamental para nos relacionarmos de maneira correta com a Palavra de Deus. E, para quem presume que a má interpretação das Escrituras sagradas é coisa de somenos importância, convém atentarmos para a solene advertência do apóstolo Pedro quando asseverou: “e tende por salvação e longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles (2 Pe 3.15,16). 


SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
POR: JOSÉ MÁRIO DA SILVA
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