segunda-feira, 16 de agosto de 2010

PARALELO, BIZARRO E GOSPEL.

O termo gospel é um estrangeirismo usado na nossa língua para designar, em geral, o movimento evangélico. A palavra tem origem na língua inglesa e significa evangelho; daí a identificação com o segmento cristão.

Inicialmente - pelo menos de acordo com alguns especialistas no assunto – o termo gospel era usado para designar, especificamente, o segmento musical evangélico que eclodiu no Brasil, lá pelos idos anos de 80 e 90, o chamado “Movimento Gospel”. O termo teria sido emprestado do inglês devido à forte influência exercida pela música norte-americana na música da igreja brasileira. O tempo passou e a expressão gospel não ficou restrita apenas à música o próprio universo evangélico. Tudo que tem alguma conotação evangélica hoje em dia é gospel. Gospel hoje é o designativo de um mundo, de um universo paralelo.

O mundo gospel é uma espécie de realidade paralela, um mundo à parte do mundo real, uma espécie de Matrix, ao qual os crentes são transportados após se “converterem”.

Há algum tempo os evangélicos eram conhecidos como o povo do “não pode”. Tudo que se lembrava a respeito dos crentes eram os “prazeres” da vida dos quais eles eram tolhidos. Crente não podia dançar, não podia beber, não podia freqüentar danceterias, não podia curtir carnaval, entre muitos outros “deleites”. Mas agora, com o advento do universo gospel, os problemas dos crentes acabaram. No universo paralelo tudo pode, desde que seja gospel, ou, pelo menos, desde que se acrescente a palavra gospel ao final.

Então, a situação fica mais ou menos assim: o crente que não podia freqüentar danceterias nem ir a “baladas”; mas agora pode, porque o universo paralelo oferece baladas gospel nas boates gospel onde a cristandade pode dançar à vontade ao som de DJ's, “na liberdade do Espírito”. Para os que curtem o ritmo frenético do funk, o universo paralelo oferece a oportunidade de balançar ao som do funk gospel, “para a glória de Deus”. Os admiradores do axé podem, no mundo paralelo, foliar sem constrangimentos sob o batido do axé gospel. O Carnaval, que era considerado quase pecado mortal há alguns anos atrás, no mundo paralelo perde a tonalidade dantesca e os crentes podem desfilar nos blocos gospel festejando “na alegria do Senhor”.

Esse mundo parelelo ao qual chamam de mundo gospel às vezes me faz lembrar do Planeta Bizarro, aquele mundo estranho em que viviam alguns inimigos do Superman. De acordo com a ficção, o Planeta Bizarro surgiu na tentativa de alguns cientistas de clonar o homem de aço. Mas algo saiu errado, e tudo naquele planeta se tornou uma cópia mal feita do mundo real, uma realidade invertida em que tudo é o contrário do mundo real. Assim me parece o mundo gospel.

O mundo gospel com suas baladas, folias, blocos e funk gospel é um tipo de clone mal feito do mundo real. Um mundo bizarro que tenta imitar a realidade, mas acaba criando algumas coisas bem toscas. Não é sem razão que muitas vezes encontramos verdadeiras aberrações nesse universo paralelo, algumas delas capazes de envergonhar o verdadeiro Evangelho de Cristo. Quer coisa mais ridícula do que ver um sujeito cantando: "Quer louvar, quer louvar, o pastor vai te ensinar!" e um monte de gente rebolando em volta "para a glória de Deus"? Ou quer coisa mais tosca do que um monte de gente dançando ao som de uma música do tipo: "Vem curtir, vem louvar, se prepara pra dançar" numa balada crente? E o que dizer de um bloco de carnaval cheio de crentes dançando nas ruas do Pelourinho em nome de Jesus? Colocar o nome gospel não me parece conferir a certas bizarrices o grau de verdadeiro ou bíblico. Pelo contrário. Às vezes revela a antítese desse universo com a verdadeira identidade evangélica estampada nas páginas bíblicas.

O povo de Deus não precisa de um universo paralelo para viver sua identidade. Peço licença para dizer que nem tudo que é gospel é, necessariamente, bíblico. O universo paralelo em que muitos “evangélicos” vivem pode ser apenas fruto da imaginação de quem ainda não compreendeu o verdadeiro sentido do que é de fato o Evangelho.
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