quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sofrimento: a pedagogia de Deus... E o maior de Seus mistérios

Sofrimento: a pedagogia de Deus... E o maior de Seus mistérios
Ricardo B. Marques* 

    Há dias que eu andava meio insatisfeito com alguns acontecimentos. Poderia destacar, por exemplo, a batida que deram no meu carro ano 2000, financiado e ainda com 31 parcelas a vencer. Seguido de desentendimentos e mau atendimento por parte do seguro e da oficina, ainda amarguei receber o veículo em más condições, o que está me levando a processar o responsável pelo serviço. Para completar, há três dias quebraram o vidro do passageiro e levaram um som MP3. No dia seguinte ao conserto do vidro, que custou R$ 100,00 (o som, obviamente não vou repor), a bateria do carro chega ao fim e precisei trocá-la - menos R$ 200,00 na magra conta bancária. 
     Colegas no trabalho chegaram ao ponto de brincar, dizendo que estou numa "maré de azar", imaginem só. Se eu não fosse cristão, talvez até acreditasse, considerando estes e mais alguns outros episódios de uns tempos para cá. Como não podia deixar de ser, incluem-se assuntos de ordem financeira, patrimonial e de negócios, onde, por mais equilibrado, planejado e austero que se seja, somos surpreendidos por ventos contrários que sopram tão violentamente que não há como sua vela não quebrar. Entre tais ventos de surpresa que abalam como ninguém as finanças, e mais ainda as emoções, estão os problemas de saúde na família: desde o início do ano temos sido sistematicamente fustigados por viroses, alergias, infecções bacterianas, doenças hereditárias etc.
     Anteontem eu fui a um hospital pegar um exame de sangue da Rebeca, minha filhinha de 3 anos, com a cabeça cheia de preocupações pelo fato dela estar com febre e tosse há muitos dias, emagrecendo por recusar alimentar-se, e o antibiótico demorando para fazer efeito. A preocupação era reforçada pela crise de asma que naquele dia acometera Daniel, meu filho de 9, deixando-o quase sem fôlego ao simples ato de caminhar. Cabeça a mil, envolta com estes e outros dilemas, custa-me a concentração no trabalho e em outras prioridades na vida de um profissional e de um pai de família.
     Foi então que, passando em frente à emergência pediátrica, vi uma pequena multidão de crianças, desde bebês de colo até meninos quase adolescentes, esperando ser atendidos. Alguns pequeninos gemiam de dor no colo de suas mães, cujos rostos pareciam desfigurados pelo temor do que poderia estar acontecendo aos seus queridos... Outros jaziam em cadeiras de rodas, soro na veia e um olhar semicerrado de quem anda cansado de tudo aquilo... Notei um adulto chorando pelos cantos, a revelar a angústia pelo sofrimento dos filhos, talvez alguns em estado grave o suficiente para arrancar lágrimas de quem costuma escondê-las
     .Relutante, percebi como eu estava dominado pelo "mito da grama mais verde". Lembram? Aquela historinha de que a gente sempre acha que o gramado do vizinho é mais bonito que o nosso, mas se trocarmos de casa com ele, aí nos damos conta de todas as imperfeições do gramado dele, e passamos a achar que o que tínhamos antes é que era o bom...
     .Pois é, me dei conta de que meu sofrimento, e o de minha família, por mais que me machuque, por mais que me cause angústias e ansiedade de vez em quando, ainda é muito, muito menor do que o da maioria. Ao olhar todas aquelas crianças no hospital, me apercebi de como eu e minha família somos bem-aventurados, com meus filhos tendo apenas asma e sinusite (entre outras coisinhas), enquanto aquelas outras vidinhas tinham a infelicidade de experimentar situações bem mais sérias.
     ."Ah!", diria o crítico pessimista, "mas você não está esquecendo de tantas outras famílias e crianças que sofrem muito menos do que as suas? O que dizer daquelas pessoas que nem parecem merecer, mas vivem na maior regalia, sem lhes faltar saúde e até mesmo bens materiais?".
     .Vejo-me, por fim, tentado a duvidar da justiça de Deus. Essa voz difamatória parece usar de argumentos factuais para me dissuadir de que, mesmo com tantos em pior situação do que a minha, Deus me põe em pior sorte do que vários outros que, entre ímpios e arrependidos, parecem receber mais do que eu. Afinal, por que alguém que, ao contrário de mim, age com desonestidade, é mais próspero materialmente? Por que alguém que, diferente de mim, age irresponsavelmente, ou vive da avareza, ou mente e engana, ou até mesmo professa uma fé hipócrita, torna-se mais agraciado do que eu? Revoltar-se com isso não segue uma lógica?
     .Sim, tem lógica. É uma revolta perfeitamente racional - e humana. A questão é que a lógica de Deus é outra, assim Ele ensina em Sua Palavra. "Deus escolheu as coisas loucas do mundo, a fim de envergonhar as sábias", disse Paulo aos crentes de Corinto. "E lhe aprouve salvar os que crêem, pela loucura da pregação", continua o apóstolo, em meio a diversas outras constrangedoras afirmações que nos fazem "cair do cavalo".
     .Há muito que a revelação de Deus deixou claro que a Sua justiça é perfeita, baseada no amor de na graça, e não tem qualquer vínculo com merecimento. Daí a obra magnífica e plena de Jesus, quando Deus cumpriu Sua antiga promessa de fazer-se homem e vencer a morte, resultando na redenção única e completa de toda a humanidade que se reconhecer esse ato. E Ele ensinou, com todas as letras, que o efeito de tal ato de infinito amor independe do estado do homem (pois pecadores todos o somos, e ninguém está livre desse fato), bastando, para receber de volta a vida eterna que antes nos fora tirada, uma simples decisão, isto é, o uso do livre arbítrio no rumo inverso àquele tomado por nossos antepassados, lá nas origens... Em outras palavras, basta apenas um passo de fé.
     .Fé. Esse é o cerne de toda essa história. Fé é algo que se tem ou não se tem, mas também é algo que se decide ter ou não. Faz parte do livre arbítrio com o qual Deus nos agraciou, a fim de evitar que fôssemos meros robôs num mundo autômato.
     .A minha, admito, é bem pequena. Isso porque minha natureza é por demais racional, impregnada da lógica cerebral que a inteligência humana desenvolveu. A intenção disso foi boa, para boas aplicações, é claro, mas como nos atrapalha quando chega a hora de crer. Bem-aventurados os simples.
     .Mesmo assim, com fé tão pequena, ela foi suficiente para que eu me decidisse por Jesus quando Ele gerou a oportunidade certa. Houve outras que antes minha mística e meu racionalismo me impediram de aproveitar, mas Ele não desiste nunca, e até o dia da nossa morte, sempre nos interpõe a oportunidade de tomar a decisão.
     .Aqui estou eu, hoje, pondo minha pequena fé à prova, quando a voz crítica e difamatória me sussurra a dúvida aparentemente lógica quanto à justiça de Deus. De novo: por que tantos sofrem mais do que outros, se não há merecimento envolvido? Por que eu e minha família nos localizamos no meio, nem entre os mais intensos sofredores, nem entre os que usufruem frouxamente de uma boa vida quanto à saúde e/ou ao dinheiro?
     .O desconhecimento é um dos piores males que atinge a humanidade. Não falo do conhecimento acadêmico, que cheira mais a vaidade do que a necessidade; refiro-me, antes, ao conhecimento espiritual - não o das religiões, mas o que o próprio Deus revelou. Está na Bíblia, e não entendemos, ou fingimos não entender. Mas sabe-se o que as Escrituras dizem a respeito: definitivamente, bênçãos são produto da graça, a graça é exercida conforme os misteriosos planos de Deus para cada ser humano - ninguém, absolutamente ninguém, a merece.
     .Os planos de Deus não são fatalísticos, é óbvio, senão o livre arbítrio seria uma mistificação. Mas dentro do plano do Criador para cada um, onde podemos optar por caminhos e descaminhos, e temos a opção de ingressar por portões largos e atraentes, ou estreitos e sem atrativos, a verdade bíblica é que, em se tratando de cristãos convertidos e renascidos, aqueles que pouco sofrem nessa vida, pouco recebem na eternidade. Em contrapartida, aqueles que muito sofrem nessa vida, grandes dividendos lhes esperam no reino dos céus. Essa é a promessa. 
     .Já os motivos de Deus para conceder muito a alguns e pouco a outros, são absolutamente desconhecidos. 
     .A Bíblia esclarece, através dos exemplos de vida nela relatados, assim como por meio dos ensinamentos dos autores e também a partir dos próprios casos que testemunhamos na história e no dia-a-dia, que para os não-crentes o sofrimento é produto de sua própria degradação, resultado dos males que praticam. Por outro lado, é comum vermos incrédulos prosperando, ricos de saúde e de dinheiro; isso serve para nos lembrarmos de que a prosperidade dos ímpios é matéria bem explanada nas Escrituras, que o diga o salmista Asafe. É estabelecido que muitos recebem aqui o resultado das vidas ímpias que levam, porém nada do que ganham os acompanhará à eternidade. E, chegando lá, onde a saúde deixa de fazer sentido e os bens materiais ficaram às traças por aqui mesmo (ou aos herdeiros, que os tornarão motivo de mais impiedade), o que dirão diante de Deus? Nos esquecemos de Ti e de nossa vida eterna, porque nos ocupamos com o prazer e o lucro? Em resposta, poderiam eles mesmos concluir e, se pudessem, gritar aos que ficaram: "bem-aventurado o que devota a sua curta vida terrena a preparar-se para onde - e com quem - estará pelo resto do tempo sem fim"...
     .Em contra-partida, a Palavra revela que para os crentes o sofrimento (e não a saúde e os bens materiais) vem proporcionalmente ao grau de fé e dedicação à obra - veja-se o caso da maioria dos homens e mulheres de Deus na Bíblia. É assim que, quando vejo o meu sofrimento e o comparo ao de tantos outros, de ontem e de hoje, envergonho-me da minha fé e da minha dedicação - era para eu sofrer muito mais, se eu fosse mais fiel e desprendido.
     .Claro, todos conhecem crentes que, mesmo manifestando uma fé minúscula e/ou mostrando-se medíocres na dedicação ao Reino (não confundir com grau de envolvimento em atividades institucionais, o que pode ou não estar relacionado) e/ou acumulando riquezas e não dividindo o que têm entre os irmãos, aparentemente sofrem pouco, pelo menos em matéria de saúde e de vida material. Com certeza não é injustiça da parte dos céus, e há boas razões para isso. Uma possível resposta: pode ser que na eternidade venha uma contrapartida menor em galardões, seja lá o que isso signifique.
     .Quanto aos raros casos de quem exerce fé e dedicação com afinco, porém sofre menos, o que dizer destes? Ora, quem somos nós para julgar? Deus tem suas razões, e o que Ele permite ou não, é problema dEle. Como escrevi numa reflexão, há cerca de 3 anos, também sobre o sofrimento (quando minha filha recém-nascida quase perdeu a vida), esse parece ter sido o caso de João, escolhido por Jesus para não passar pelo sofrimento e morte dolorosa que acometeu todos os demais apóstolos. Ao ser indagado por Pedro quanto à razão desse privilégio apenas para João, quando Jesus os informou que apenas ele ficaria para contar a história, o Senhor respondeu ao pescador: "que te importa"? E completou: "quanto a ti, vem e segue-me".

fonte: VINACC

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